Book#01


#1 - Carta de 23/08/2011

Meu caro amigo tinha vontade de escrever esta carta acossado pelas palavras de Goethe na boca do jovem Werther.

No meu mais profundo fundo e amargo olhar, reencontro nas suas ideias a frustração de um sentimento quase completo. Não me lembro de tamanha comparação com esta probabilidade espelhada no que alguém escreveu por mim há anos sem fim.

Na outra vez passeava nas ruas do Chiado e encontrava o passado pelas montras, olhava nos vidros e via sombras a preto e branco; e, nelas, desfrutava de uma alegria quase mórbida, porque ouvia os silêncios absorvidos pela idade centenária das criaturas que ali depositaram as suas mãos e o seu suor. Levava entre os dedos a ambição de partilhar aqueles momentos com alguém que havia conhecido anos antes, nesse caso, seria uma mais valia para o meu ego, não fosse ele uma profunda e insegura ponte para o mais nefasto desassossego.

No fundo de mim encontrei algo que eu não esperava de sobremaneira descobrir, estava enterrado tão fundo no meu ser, que seria necessário descer aos infernos mais profundos, sobreviver ao calor mais ardente do centro de uma terra que nos podia moldar o aço do ser, como se fosse uma matéria simples e mole. Estava demasiado concentrado na minha existência para perceber que a existência de outrem era realmente de uma importância vital para compreender o que me levava a dar um passo em direcção a qualquer lado que fosse.

No melhor de mim, deixei de ser eu, para ser um corpo preso ao sentimento e, viver em função de um ar que nem eu sabia respirar. Por muito absurdo que fosse, era esse ar que me manteria vivo o suficiente para conseguir distinguir o que sobrava no meu pensamento.

Por agora sinto-me sereno mas logo mais vou perceber que toda esta serenidade advém de uma lógica irreal ou de um movimento químico e especifico do meu corpo.

Não tardarei a dar noticias e a contar toda a história. Por agora despeço-me, esperando que esta carta te encontre na melhor forma possível perante as realidades que o Mundo nos traz.

Até lá, um cordial e forte abraço.

***

Meu caro amigo, em resposta à sua carta, cumpre-me dizer que estarei disponível para ler atentamente a sua história, pese embora, o creia, que nada posso julgar na sua mais que total legitimidade sentimental.

Estou em crer que lhe falta alguns dos atributos que tornam a capacidade emocional uma mais valia para a sua vida e para a sua pacificação pessoal.

Penso que devia depositar todo o seu sofrimento num cofre bem fechado e cuidar de perder a sua chave. É infinitamente incompreensível que se sinta desgastado pelo romance ou pela entrega a alma alheia. E é o mais certo que é nessas palavras que me vou encontrar com o seu pensamento.

Desejo-lhe que se estime e se envolva mais com o seu ser. Certamente será o suficiente para respirar o ambiente que o rodeia.

Com um profundo abraço me despeço.

W.

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